NÓS, PROFESSORES E A INCLUSÃO: PROBLEMA OU SOLUÇÃO?

1-INTRODUÇÃO

A inclusão de estudantes com deficiência no sistema regular de ensino está baseada na perspectiva de educação global, para todos. Através da socialização e convivência com estudantes com diferentes potencialidades e limitações, contudo, e educação global nem sempre é oferecida, ao passo que, em contra partida as limitações sobressaem ao ambiente escolar no cotidiano. No ensino regular os professores ao se depararem com esses alunos muitas vezes não se sentem preparados para atuarem, e de fato, muitas vezes não estão. Trabalham em um mundo desconhecido e misterioso cheio de rótulos que diferencia os alunos “normais” dos “excepcionais”. Relatório Warnock, documento publicado em 1978, sugere que a expressão necessidades educacionais especiais seja aplicada não para rotular o aluno, mas sim, para traduzir todas as exigências para seu progresso escolar. Incluise aí a eliminação de barreiras arquitetônicas; formação e competência dos educadores; adaptação de material didático; utilização de recursos especiais. Sendo assim de extrema importância a preparação e aperfeiçoamento dos profissionais envolvidos em tais práticas. As dificuldades encontradas na educação inclusiva são diversas, desde professores despreparados a salas lotadas; escolas com infra-estrutura inadequada e não adaptadas as diversas limitações; pais que não se sentem a vontade de seus filhos estudarem em escolas plurais, além de práticas e políticas pedagógicas que não corroboram para um ambiente respeitoso, interativo e inclusivo. Entretanto, políticas publicas, ainda que em menor número, e movimentos sociais inflamados e determinados tem se empenhado para garantir a realidade diversa que existe no mundo, representada também dentro das escolas. Mediante isso, torna-se de extrema importância a participação e pesquisa em temas que auxiliam a construção de um ambiente que seja capaz de receber bem a qualquer individuo com suas possíveis dificuldades ou diferenças. A inclusão escolar de grupos, historicamente segregados é um avanço, mas apenas o começo da luta.

 

2-DESENVOLVIMENTO

Vivenciamos um momento no qual a inclusão escolar vem sendo amplamente debatida. Segmentos diversos da sociedade tem se posicionado a importância da discussão sobre o tema, contudo, ainda há muito que se fazer. Apesar de parecer recente, desde o século XX o direito a educação foi assegurado a todos, entretanto, alguns não tiveram parte. Mediante esse fato e a lutas constantes em favor das minorias, nas ultima décadas vem se argumentando sobre o verdadeiro direito a educação, de forma integral e que abranja a todos. Desse modo, na década de 1980 o conceito de inclusão social foi desenvolvido, mas apresentou maiores proporções na década seguinte quanto a Declaração Mundial Sobre Educação para Todos (UNESCO, 1990), a Declaração de Salamanca (Espanha, 1994) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) trouxeram as necessidades a serem discutidas e assumidas a partir de documentos legais nacionais e internacionais. A LDBEN 9394/96, redefine a Educação Especial, de modo que a educação escolar trazida esteja ligada a todas as etapas e níveis de ensino. Dessa maneira foi possível desarticular a idéia, pré-concebida, que liga educação especial, necessariamente, a escola especial. Contudo, é passível de compreensão que a exclusão esteja presente em vários ambientes e seguimentos da sociedade, de acordo com Aiello-Vaisberg (2002) os indivíduos ou a comunidade que segrega, o faz como forma de se defender da incompreensão em relação ao outro, colocando-o em um patamar diferenciado justamente com a intenção de negar a semelhanças com esse outro. A Declaração de Salamanca (1994) desafia o que se entende por Educação Especial ao relatar “pessoa com necessidades educacionais especiais”, ampliando essa concepção a todas as crianças e jovens, quer seja com deficiências ou não, pois todos têm particularidades em suas características de aprendizagem.

[…] uma criança não se desenvolve em todos os aspectos no mesmo ritmo.Ela pode aprender e desenvolver formas culturais de enfrentar problemas em uma área, mas permanecer em níveis mais anteriores e mais primitivos quando se trata de outras áreas de atividade. Seu desenvolvimento cultural é freqüentemente desigual e os experimentos indicam que traços do pensamento primitivo surgem muitas vezes em crianças bastante desenvolvidas. (Luria, 1988, p. 101)

Mazzotta (1982, p.4) aponta para o princípio orientador do atendimento às pessoas com deficiência dizendo que esse atendimento não se deve dar “em função das limitações, mas, principalmente da capacidade de desenvolvimento e mudança do ser humano”. O princípio esperado é que as escolas acolham a todas as crianças, incluindo crianças com deficiências, capaz de educar com sucesso a todos, atendendo às necessidades de cada um, considerando as diferenças existentes entre elas (PAULON, 2005). As pessoas são extremamente diversas entre si. Mesmo tendo as mesmas funções alteradas, as possibilidades de desenvolvimento serão diferentes tanto quanto em crianças com ou sem deficiências. Esse cenário permite tornar a educação especial como um recurso único, inovador e benéfico para todos os educandos, assim como, para os professores agregando toda a diversidade que se é constituída por grupos tão plurais. É importante assegurar, não somente a entrada da criança com deficiência nesse novo universo, mas principalmente promover a ruptura de ações discriminatórias em relação a esta população, a partir da escola, concebida como ambiente no qual grupos sociais distintos possam relacionar-se satisfatoriamente (ÁVILA,2008).

[…] “As pessoas com deficiência, com síndromes, são historicamente identificadas como páreas sociais em função de um conjunto de igualdades mais ou menos constantes que acabam por definir seu lugar na sociedade: lugar de exclusão” (Paulon, 2005, p.07).

Ela ainda discorre sobre a necessidade de se avançar nas pesquisas e movimentos sociais que alavancam a democratização e a construção de espaços sociais mais diversos e menos excludentes. De acordo com Saad (2003), o não domínio geral da sociedade, sobre o assunto, ainda segrega. Parte pelo desconhecimento, parte pelo não interesse. Contudo, essa atitude encaminha e reafirma um problema maior. A criação e perpetuação de mitos e preconceitos, construídos ao longo da história referente às potencialidades e conhecimentos que as pessoas com alguma deficiência podem alcançar. Fatores como esses dificultam a inserção e a participação plena desses indivíduos na sociedade, além de reproduzir sutilmente o preconceito. Segundo Glat e Nogueira (2003) um dos maiores desafios é a desconstrução de uma cultura arraigada da formação clássica do professor, onde por anos o processo de ensino e aprendizagem preconizava uma concepção estática, com a existência de uma metodologia universal. Desse modo, um processo de ensino foi eleito como “normal” e “saudável” para todos os sujeitos, contudo, aqueles que apresentassem alguma desadequação, dificuldade ou deficiência eram consideradas fora da norma, ou seja, “alunos irregulares” em um “sistema regular de ensino”.

A escola pública, criada a partir dos ideais da Revolução Francesa como veículo de inclusão e ascensão social, vem sendo em nosso país inexoravelmente um espaço de exclusão- não só dos deficientes, mas de todos aqueles que não se enquadram dentro do padrão imaginário do aluno “normal”. As classes especiais, por sua vez, se tornaram verdadeiros depósitos de todos aqueles que, por uma razão ou outra, não se enquadram no sistema escolar (GLAT, 2000. pg 18).

A educação inclusiva não é uma tarefa fácil, mas possível se todos se empenharem nesse caminho. Existem barreiras diversas, que precisam ser problematizadas cada vez mais para que ocorra uma tentativa de mudança. Encontra-se hoje, nas escolas regulares, uma resistência muito grande dos profissionais do ensino em relação ao modo como trabalham, as necessidades são diferentes das de outrora, e essa posição de inércia atrapalha o trabalho que propõe atrelar praticas inclusivas a pratica pedagógica cotidiana. Desse modo, a pratica pedagógica do professor, está impregnado pela concepção, fantasiosa, de que existem duas categorias qualitativas de ensino muito bem delimitadas; os alunos “normais” que frequentam escolas regulares e os alunos “excepcionais” que são próprios das escolas de educação especial (GLAT e NOGUEIRA, 2003). Dessa maneira, os problemas e distúrbios encontrado nas diferenças não ira perturbar o processo de ensino.

O professor (da classe especial) certamente conhece o diagnóstico de aluno- as principais características e decorrências de seu padrão patológico- mas quase nunca usa este dado como ponto de partida para conhecer as potencialidades do sujeito. O diagnostico é mais frequentemente visto como um fator limitante na vida escolar do aluno; define o que o sujeito não pode fazer. Paradoxalmente, a situação da escola regular não é muito diferente. Falta, na maioria dos casos, uma reinterpretação das dificuldades e necessidade no contexto escolar (FREIRE e VALENTE 2001, pg 76).

Essa diferenciação entre os trabalhos exercidos pelos profissionais que estão juntos ao aluno de inclusão e junto da turma regular é transferida para o cotidiano dos estudantes, deixando de lado um trabalho efetivo de inclusão, tomando a aula como um faz-de-conta. A colaboração e co-participação dos profissionais do ensino regular e da educação especial em trabalhos e reuniões conjuntas, assim como em praticas pedagógicas para tomadas de decisões e estratégias que visam às adaptações necessárias para promover o desenvolvimento das potencialidades e o aprendizado de alunos com deficiências, valorizando as características de cada um.

 […] na medida em que, por um lado, os professores do ensino regular não possuem preparo mínimo para trabalharem com crianças que apresentam deficiências evidentes e, por outro lado, grande parte dos professores do ensino especial tem muito pouco a contribuir com o trabalho pedagógico desenvolvido no ensino regular, na medida em que têm calcado e construído sua competência nas dificuldades especificas do alunado que atente […] (BUENO 1999, pg. 15).

Nesse caminho Carvalho (1998) afirma que os próprios professores têm se queixado de sentimentos de segregação. Os que atuam em educação especial lamentam não serem incluídos em todas as reuniões pedagógicas que acontecem na escola ou nas Secretarias de Educação, ficando limitados às que são organizadas pela educação especial. Curiosamente, seus pares que trabalham em turmas regulares também não são convidados a participar dos trabalhos pedagógicos promovidos pela educação especial. E considerando que, a inclusão de crianças com necessidades educacionais especiais produz impasses no cotidiano escolar é necessário que constantemente práticas e valores sejam repensados. Segundo Stainmback e Staimback (1999) a aproximação e amizades criadas por alunos em ambientes de inclusão podem auxiliá-los a se sentirem realmente membros de suas comunidades, além da oportunidade de aprenderem sobre interesse no próximo, apoio mútuo e respeito em uma sociedade inclusiva, ao passo que junto aprendem habilidades acadêmicas. Dessa maneira, a educação é múltipla levando em consideração que a diversidade é algo inerente ao ser humano. Sendo assim cria-se um ambiente com o dever de formar cidadãos responsáveis, instruindo e proporcionando uma educação a todos Santos (2003). Por isso, segundo Ferreira (2006) o educador deve, ir além do básico, que é proporcionar acesso à educação para os estudantes, torna-se preciso que a cada aula barreiras sejam combatidas para que não se crie um espaço excludente em sala.  Os professores e a escola, de maneira geral, conhecem sobre a existência de leis acerca da inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais. Entretanto, este conhecimento não prepara os professores nem a equipe pedagogia. Então, se faz necessário respeitar e garantir uma educação que assegure a política de inclusão assim como, a potencialidade dos alunos e respeito mutuo. Um caminho plausível a ser seguido é explorar objetos e símbolos presentes na vida dos estudantes.

 

3-CONCLUSÃO

A educação inclusiva, ainda enfrenta grande resistência, muitas vezes legítima, outras preconceituosas, contudo, muitos pais, ONGs, segmentos militantes e educadores têm tentado resgatar valores sociais fundamentais que preconizam a igualdade de direitos e oportunidades a todos. Entretanto, essa é uma caminhada longa e árdua e seus frutos precisam ser cultivados para que a inclusão de alunos com necessidade especiais sejam de fato inseridos no sistema. Dessa maneira benefícios diversos poderão permear o meio escolar, como cidadania e respeito. Todas as leis promulgadas, encontros e concílios sobre a temática são importantes, porém não basta apenas caminhar neste âmbito, é preciso preparar professores com uma formação adequada de qualidade, melhorar a infra-instrutora e tornar as escolas um ambiente agradável. A políticas publicas que visam a efetividade da inclusão devem promover programas de acompanhamento continuo, que orientem tanto o trabalho docente, quanto pedagógico e também dos professores acompanhantes, para que haja a diminuição gradativa da exclusão escolar, que irá beneficiar não apenas a comunidade escolar, mas a todos que indiretamente estiverem em contato com crianças e jovens que participarem de uma educação pautada no respeito as diferenças.

 

REFERÊNCIAS:

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Ingriddy Nathaly Santos Moreira



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