O tradutor/intérprete de LIBRAS e suas dificuldades no âmbito da sala de aula inclusiva

1 INTRODUÇÃO

A inclusão do aluno surdo no ensino regular está determinada pelo decreto de lei no 5.626, de 22 de dezembro de 2005¹ que regulariza a lei que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). No entanto, para que aconteça tal inclusão como é previsto legalmente, é necessário que se tenha comprometimento e o devido reconhecimento da LIBRAS e direitos dos surdos por uma educação de qualidade.

O aluno surdo sendo incluído na sala regular de ensino requer a necessidade de um profissional habilitado e competente que traduza e interprete a língua de sinais (LS) para a língua falada e vice-versa, mediando a sua comunicação com os demais colegas e professores. Esse profissional é o Tradutor/Intérprete de Língua de Sinais (TILS), neste trabalho mais precisamente, o de LIBRAS (BRASIL, 2004).

O porquê da escolha pela temática em questão se deu pela curiosidade de saber como é o trabalho do Tradutor/Intérprete de LIBRAS no âmbito da sala de aula e se o mesmo encontra dificuldades para a sua realização. A sua relevância consiste em mostrar a importância que é o ofício deste profissional podendo estimular diversas pessoas para o (re) conhecimento de seu trabalho.

Diante do exposto, o objetivo principal que circunda esta pesquisa é destacar as dificuldades que dois Tradutores/Intérpretes de LIBRAS do estado de Sergipe possam encontrar em seu trabalho na sala de aula junto ao aluno surdo, pois se acredita que no decorrer do processo de interpretação podem surgir dificuldades que cercam o seu exercício.

1 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm

 

2 DESENVOLVIMENTO

2. 1. O papel do Tradutor/Intérprete de Libras Educacional

O Tradutor/Intérprete de Língua de Sinais (TILS) tem um papel muito importante na comunicação entre ouvintes e surdos. Sem essa mediação a comunicação entre esses sujeitos fica interrompida, principalmente na sala de aula, onde o aluno surdo está inserido na sala regular de ensino com os demais colegas e professores ouvintes, que podem não possuir certo conhecimento nessa língua.

No Brasil o TILS faz a mediação entre a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa. Ou seja, como a LIBRAS não é uma língua universal, em cada país vai existir este profissional fazendo o seu trabalho com determinadas línguas de sinais existentes pela comunidade surda local; na França, a Língua de Sinais Francesa (LSF) e o francês, por exemplo, (LACERDA; SANTOS, 2013, p. 28).

A função dada a este profissional requer dele competência e vasto conhecimento não só nos sinais da LIBRAS para seu uso na interpretação, mas também da língua portuguesa e de todo o contexto que rodeia o sujeito surdo: questões culturais, sociais, políticas e linguísticas. Ou seja, a formação para exercer a função de TILS não é algo tão simples como possa parecer, sendo preciso o conhecimento de diversos saberes inerentes ao seu trabalho.

O contato com a LS pode nascer inicialmente através de laços familiares em que possa ter um parente surdo ou também com o contato com surdos em diferentes ambientes, incentivando ao conhecimento e estudo dessa língua. Nesse contexto Gesser (2009, p. 47) fala que:

O intérprete tem sido uma importância valiosa nas interações entre surdos e ouvintes. Na maioria dos casos, os intérpretes têm contato com a língua de sinais a partir dos laços familiares e da convivência social com vizinhos e amigos surdos (ocorrendo geralmente em espaços escolares e religiosos).

Nesse sentido, a aprendizagem da LIBRAS pelo sujeito ouvinte vai depender do contato com o surdo que tenha como língua materna a Língua Brasileira de Sinais, seja no contexto familiar, instituições de ensino ou na sociedade de modo geral. É importante destacar que nem todos os surdos têm experiência nesta língua por muitas vezes serem filhos de pais ouvintes e que estes não tiveram nenhum contato com a LS.

O profissional pode encontrar diversos desafios em seu trabalho, principalmente quando o aluno não traz consigo o conhecimento da sua língua natural que é a Libras. Sendo assim, é preciso que ele juntamente com o professor regente discuta mecanismos para o desenvolvimento educacional deste aluno proporcionando sua inserção no espaço escolar como qualquer outra criança. Outra dificuldade encontrada por intérpretes de Língua de Sinais é em relação a sua prática cotidiana, pois “[…] encontra possibilidades restritas para o seu exercício profissional, com baixa remuneração e difícil acesso a cursos referentes à sua área de atuação, os quais são geralmente ofertados nos grandes centros urbanos” (GUARINELLO et al, 2008, p. 65). O que resulta no despreparo de alguns profissionais, em especial aqueles que interpretam em disciplinas que ainda não possuem sinais específicos.

Diante de todo o contexto mencionado percebe-se a importância desse profissional no ambiente escolar, porém é preciso que haja mais valorização, principalmente por parte dos governantes. Além disso, é preciso que os TILS possam ter formações continuadas para o aprimoramento de seu trabalho com o surdo, como também materiais de apoio didáticos-pedagógicos e contribuição do docente regente da aula.

2. 2. Metodologia

A presente pesquisa foi realizada através de levantamento bibliográfico, como também de uma pesquisa de cunho qualitativo, onde não se pretende enumerar, nem tabular dados numéricos, mas descrever e compreender as diferentes realidades que é possível encontrar do objeto de estudo. Sobre pesquisa qualitativa Godoy (1995, p. 63) enfatiza: “os pesquisadores qualitativos estão preocupados com o processo e não simplesmente com os resultados ou produto”.

Os sujeitos da pesquisa foram dois Tradutores/Intérpretes de LIBRAS do estado de Sergipe. Estes profissionais serão representados como: TILS 1 e TILS 2 por questões éticas. O TILS 1 é Graduado em Letras/Libras Licenciatura, Especialista em LIBRAS, atualmente é professor substituto de LIBRAS na Universidade Federal de Sergipe – UFS e Tradutor/Intérprete na mesma instituição.

O TILS 2 é Graduado em Química Licenciatura, Especialista em LIBRAS, Mestre em Ensino de Ciências e Matemática, e atualmente é professor de LIBRAS na Universidade Federal de Sergipe.

A coleta de dados para a presente pesquisa foi realizada através da aplicação de questionário contendo 05 perguntas subjetivas, onde havia questões referentes ao trabalho dos dois Tradutores/Intérpretes de LIBRAS no âmbito da sala de aula, mas com o propósito principal, de descobrir as dificuldades encontradas por estes profissionais.

Questionário é um instrumento de coleta de dados constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador. Em geral, o pesquisador envia o questionário ao informante, pelo correio ou por um portador; depois de preenchido, o pesquisado devolve-o do mesmo modo (MARCONI; LAKATOS, 2012, p. 87).

Por não ter como o pesquisador se deslocar do seu município e ir de encontro aos pesquisados, os questionários aplicados foram enviados via email para serem respondidos pelos dois TILS e depois de alguns dias foram devolvidos também via email com suas respectivas respostas.

2. 3. Resultados e Discussões

Neste momento serão analisados os dados encontrados através das respostas dadas pelo questionário. Diante de tais respostas, foram elencadas quatro principais dificuldades pelos dois TILS em que estes perpassam durante o seu trabalho e que serão apresentadas e discutidas posteriormente.

Dificuldade 1: Confiança entre professor e aluno surdo para com o intérprete.

Diante da primeira dificuldade mencionada pelo TILS 1 é possível perceber que este profissional necessita inicialmente de ser aceito pelo aluno surdo e até mesmo pelo educador. Acredita-se que pelo aluno surdo por ser um primeiro contato, onde este ainda está em fase de adaptação. E pelo professor por ter um novo profissional ao seu lado, podendo surgir um desconforto, receio ao ensinar, acreditando que este possa está avaliando-o ou por acreditar que o TILS esteja dando dicas ou as respostas dos conteúdos através da interpretação.

Em um estudo realizado por Santos, Grillo e Dultra (2010, p. 4), revela que um dos maiores desafios que enfrentam os TILS é aceitação da equipe escolar em ter esse novo profissional, dizendo que: “muitas escolas apenas o aceitam pelo simples fato de cumprirem a lei, para evitarem conflitos que acabam com a imagem da instituição. Assim delegam ao TILS a tutela dos alunos surdos”.

Dificuldade 2: Professores que não são a favor da inclusão

O TILS 1 menciona ainda a dificuldade que tem em trabalhar com professores que não concordam com a inclusão do aluno surdo na sala regular de ensino. Isso quer dizer que provavelmente os alunos surdos segundo estes professores precisariam estar em uma sala especializada para o atendimento a pessoa com surdez, neste caso, acredita ser as salas de recursos que fazem o Atendimento Educacional Especializado – AEE.

No entanto, cabe ao professor demonstrar respeito pelo aluno surdo mesmo que não concorde com a presença deste na sala regular de ensino. E juntamente com o TILS procurar meios para o melhor desenvolvimento do estudante, pois com a inclusão deve garantir ao surdo sua possibilidade de acesso aos conhecimentos que está sendo expostos, além do respeito, principalmente por sua condição linguística. (LACERDA, 2007, p. 261).

Dificuldade 3: Ausência de muitos termos que ainda não possui sinais equivalentes na LIBRAS

A dificuldade apresentada pelo TILS 2 é muito importante, pois a LIBRAS apesar de ser uma língua, ainda não possui sinais para alguns termos. Em um momento informal entre o pesquisador e o TILS, o mesmo mencionou que quando isso acontece é necessário criar junto com os surdos novos termos. No momento que ainda não é criado, é utilizado da datilologia na interpretação. O intérprete educacional deve estar sempre estudando e se atualizando para obter uma boa interpretação nas aulas e nas diferentes disciplinas, pois há muitos termos específicos dentro das disciplinas de biologia, química, física, filosofia que não têm sinais nas libras, e, para o intérprete, conhecendo seus significados, torna-se mais fácil explicar para os alunos surdos a forma de combinarem um sinal entre si para estes termos (OLIVEIRA, 2012, p. 100).

Diante da fala de Oliveira, é importante mencionar outra dificuldade que o TILS 2 relata que se relaciona com a ausência de determinados termos em LIBRAS que é a falta de formação específica nas disciplinas ministradas. Acredita-se que essa dificuldade possa surgir devido à própria ausência do que foi mencionado anteriormente.

Nesse sentido, é considerável que haja formação específica que contemple a disposição de sinais de termos não conhecidos por determinadas disciplinas para que não se crie lacunas no trabalho do intérprete. É importante mencionar também a participação de instituições credenciadas pelas secretarias de educação que são uma das responsáveis pela formação continuada destes profissionais (BRASIL, 2016).

Dificuldade 4: Falta de materiais didático-pedagógicos e tecnológicos especializados

Como o surdo tem a modalidade de comunicação visual-espacial que diferencia da modalidade dos ouvintes (oral-auditiva), é necessário que nas escolas onde o aluno surdo esteja incluído tenha materiais em que possam auxiliar tanto o Intérprete, como o próprio professor em seu trabalho. É o que não acontece com o TILS 2, pois é uma das dificuldades relatadas por ele em seu trabalho, onde não possui estes recursos. O uso desses materiais didático-pedagógicos e tecnológicos, como por exemplo: o vídeo, livros ilustrados, ou seja, instrumentos visuais que possibilite a integração do surdo no contexto da aula apresentada são essenciais. Indo numa visão análoga, Lacerda e Santos (2013, p. 206) falam que: […] a presença do intérprete em sala de aula e o uso da língua de sinais não garantem que todas as necessidades educacionais dos surdos sejam atendidas, sendo importante ainda a disposição de recursos humanos, materiais e metodológicos adequados para que o aprendizado realmente se desenvolva.

Diante de todo o exposto, percebe-se que o Tradutor/Intérprete de LIBRAS perpassa por diversas dificuldades em seu trabalho. Estas dificuldades que estão relacionadas principalmente por questões didático-pedagógicas, valorização do intérprete enquanto profissional e inclusão do aluno surdo na sala regular de ensino. Notadamente, precisa-se por parte principalmente dos professores conhecer a verdadeira função deste profissional, pois na fala de um dos TILS revela que os docentes sentem certa estranheza por este dividir o espaço da sala de aula junto com eles, levando certo tempo para que seja criado um vínculo mais amistoso entre ambos.

3 CONCLUSÃO

O estudo sobre o Tradutor/Intérprete de LIBRAS e suas dificuldades no âmbito da sala de aula mostrou que este profissional vivencia diversas dificuldades em seu trabalho e que os mesmos procuram mecanismos para resolver, evidenciando desta maneira que foi possível alcançar o objetivo que era esperado com esta pesquisa.

A essas dificuldades requer do TILS planejamento para a interpretação das aulas dadas pelo professor, paciência pelo fato de existirem profissionais que discordam sobre a inclusão do aluno surdo no ensino regular e dedicação para que no seu exercício surjam resultados satisfatórios principalmente para o surdo que é o ator principal do processo educativo.

Apesar de existirem legislações vigentes referentes ao contexto do surdo e da Língua Brasileira de Sinais, é necessário mais reconhecimento desta língua enquanto detentora da comunicação de uma minoria linguística, como também dos próprios profissionais da área realizando formações contínuas, cursos, oficinas que contemplem a sua prática.

É importante ressaltar também o papel da escola enquanto inclusiva, pois muitas vezes não é disponibilizado instrumentos para que o tradutor/intérprete de Libras possa fazer o seu trabalho de maneira que viabilize uma mediação comunicativa efetiva.

Este estudo ampliou os conhecimentos desta área trazendo a relevância que é o trabalho do TILS, especialmente no espaço educacional e as dificuldades encontradas por eles. Além de propiciar caminhos para pesquisas futuras que possam contribuir para a formação de profissionais em que tenham como temática o surdo, educação e ensino.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto no 5.625, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, Brasília. 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm>. Acesso: 26 abr. 2016.

BRASIL, Secretaria de Educação Especial. O tradutor e intérprete de língua de sinais e língua portuguesa. Brasília, MEC, 2004. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/tradutorlibras.pdf>. Acesso em: 27 abr. 2016.

GESSER, A. LIBRAS?: Que língua é essa?: crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

GODOY, A. S. Uma revisão histórica dos principais autores e obras que refletem esta metodologia de pesquisa em Ciências Sociais. Introdução à Pesquisa Qualitativa e Suas Possibilidades, São Paulo, v. 35, n. 2, p. 57-63, 1995.

GUARINELLO, et al. O intérprete universitário da língua brasileira de sinais na cidade de Curitiba. Rev. Bras. Ed. Esp. Marília, v. 14, n. 1, p. 63-74, 2008.

LACERDA, C. B. F de. O que dizem/sentem alunos participantes de uma experiência de inclusão escolar com aluno surdo. Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 13, n. 2, p. 257-280, 2007.

LACERDA, C. B. F de.; SANTOS, L. F dos. (org.). Tenho um aluno surdo, e agora? Introdução à Libras e educação de surdos. São Carlos: EdUFScar, 2013.

MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisa, elaboração, análise e interpretação de dados. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2012.

OLIVEIRA, F. B. Desafios da inclusão dos surdos e o intérprete de libras. Diálogos e saberes, Mandaguari, v. 8, n. 1, p. 93-108, 2012.

SANTOS, I.; GRILLO, J.; DUTRA, P. Intérprete educacional: teoria versus prática. Revista da Feneis, n° 41, p. 26-30, 2010. 12

 

APÊNDICE A – Questionário para os Tradutores/Intérpretes de LIBRAS

Formação:

Profissão:

1. Em qual instituição de ensino você trabalha ou trabalhou como Intérprete e em quanto tempo?

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2. Qual a função do Intérprete de Libras no contexto da sala de aula?

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3. As pessoas confundem a função do intérprete com a de outros profissionais da área de Libras? Exemplifique.

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4. Você sente ou já sentiu alguma dificuldade enquanto Intérprete no âmbito da sala de aula? Justifique.

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5. Como deve ser a relação/convivência do intérprete com os alunos surdos dentro e fora da sala de aula?

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6. O seu município ou a própria escola onde você trabalha oferece formações ou cursos específicos na área de Libras que auxiliam na sua formação como intérprete?

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7. O que você acredita que seja preciso para que o trabalho do Intérprete de Libras se torne cada vez mais reconhecido e satisfatório?

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José Affonso



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