PEGA EM MINHA MÃO,VEM JOGAR CAPOEIRA : Primeiras Vivências com a Educação Inclusiva – Um relato de experiência

1  INTRODUÇÃO

O presente artigo se ocupará em realizar reflexões acerca da Educação Inclusiva e os desafios que estão colocados , não somente aos professores mas a toda sociedade de forma  a estabelecer redes colaborativas, afim de promover o acesso à escola e educação, garantindo um ensino capaz de dialogar a partir das especificidades dos meninos e meninas portadores de deficiência. A capoeira transversalizará a discussão contextualizando os anseios e desafios com o trabalho da Educação Inclusiva em sala de aula.

Parafraseando Neto,”os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN’s1 (1998, p. 67-73) referindo-se aos conteúdos que compõe a Educação Física, “estão organizados em três blocos: esportes, jogos, lutas e ginástica; atividades rítmicas e expressivas e conhecimentos sobre o corpo. Os três blocos articulam-se entre si, tem vários conteúdos em comum, mas guardam especificidades” ( NETO,2010, p.2).

Optou-se por este relato de experiência com intuito de discutir as possibilidades que a Capoeira pode proporcionar enquanto conhecimento e desenvolvimento corporal, cognitivo, sociocultural, afetivo e emocional. A capoeira desponta-se enquanto jogo, dança e luta, mas principalmente enquanto valores civilizatórios afro-brasileiros[1], tais como a circularidade, a oralidade, a energia vital, a musicalidade, a ludicidade, a memória, a ancestralidade, o cooperativismo/comunitarismo, a corporeidade e a religiosidade. Neste sentido, a capoeira corrobora na compreensão dos direitos humanos no que tange á valorização de todos (as) os (as) alunos(as) em suas especificidades características, acrisolando-se  a Escola Inclusiva. Segundo Diniz ( 2012. p. 33)

O princípio fundamental da Educação Inclusiva consiste em que todas as crianças devem aprender juntas, onde quer que isso seja possível, não importando quais dificuldades ou diferenças elas possam ter. Nessa perspectiva, o sistema educacional se aproxima da ideia de um caleidoscópio( Mantoan,1997), ou seja de uma imagem que contém a capacidade de se formar como única e, ao mesmo tempo ser diversa, dada a grande riqueza de suas partes.

Entende-se através da citação feita por Diniz que o princípio da Educação Inclusiva na igualdade  e no direito, seja qual for o espaço e diferenças entre as mesmas. A educação é direito de todos e todas. Endossando que são as peculiaridades que determinam o sujeito e não o que os universaliza.

Não obstante, faz- se necessário que esse direito não se traduza tão somente como o cumprimento da obrigatoriedade de matrículas e manutenção dos alunos e alunas com deficiências em salas de aula do ensino regular. Bem como o aumento do investimento em formação para Professores, cuidadores/ estagiários.

Segundo Mantoan( 2006.p.16)

A inclusão escolar está articulada a movimentos sociais mais amplos, que exigem  maior igualdade e mecanismos mais equitativos no acesso a bens e serviços. Ligada a sociedades democráticas que estão pautadas no mérito individual e na igualdade de oportunidades, a inclusão propõe a desigualdade de tratamento como forma de restituir uma igualdade que foi rompida por formas segregadoras de ensino especial e regular.

Compreende-se portanto na citação vista pela autora, a importância da articulação entre movimentos sociais mais incisivos em prol da garantia dos direitos dos portadores de deficiência por meio de políticas de acessibilidade, garantias de atendimentos diferenciados nos diversos equipamentos públicos e privados de saúde, educação, cultura, entre outros.

Neste sentido o relato de experiência que se segue, descreverá o trabalho realizado por mim nas Oficinas de Capoeira que acontecem nas Escolas Municipais de Belo Horizonte, no momento em que os professores estão em reunião pedagógica e para que a carga horária dos meninos e meninas seja garantida, contrata-se empresas prestadoras de serviços de entretenimento e cultura. Sou Capoeirista há vinte e sete anos, e tenho a capoeira como um fator vital em minha formação enquanto sujeito. Sou formado em Logística, e foi no chão da sala de aula, por meio das Oficinas de Capoeira que descobri minha verdadeira vocação, ser Professor, hoje estou por finalizar minha graduação em Pedagogia. E assim como os valores civilizatórios da capoeira que  moldaram minha dignidade e cidadania, por meio da circularidade, este princípio africano e afro brasileiro , aprendi, que a roda da capoeira é para todos, sem distinção.

Neste sentido, meu objetivo nas Oficinas de Capoeira era ensinar para todos os meninos e todas as meninas os Valores Civilizatórios da Cultura Africana e Afro Brasileira, por meio da capoeira.

2  Circularidade ,Oralidade e Energia Vital – saberes africanos e afro- brasileiros como princípios de inclusão

Era uma manhã ,mais um dia de oficina em uma Escola Municipal de Belo Horizonte, desta vez, foi a Escola Municipal Azul e Amarelo[2] localizada no bairro São Lucas, região Leste da cidade. Todo o dia de Oficina é um grande desafio, principalmente por ter um caráter esporádicos, ou seja, as oficinas não estão incluídas no currículo escolar de forma sistemática, neste sentido, para um bom planejamento das mesmas era necessário organizar atividades que curtas, porém que contemplasse os saberes e valores da capoeira, que gostaria de abordar naquele dia. Toca o sinal, hora de entrar para sala. Era uma turma do segundo ano do  terceiro ciclo[3]. Os meninos e meninas não são obrigados a fazer a oficina, mas precisam permanecer em sala de aula, mas um motivo para que eu planejasse uma oficina atrativa.

Entro na sala, todos em pé, falando alto, mal me ouvem, o que fazer? Alguns gritam do fundo da sala que não iriam fazer, obvio, não são “obrigados” .Porem, sentado no canto da sala e atento a tudo que estava acontecendo, estava o José Luiz[4], usava muletas, logo percebi que tinha uma deficiência física, não pelo uso das muletas, mas porque suas pernas eram atrofiadas ,mas tinha um bom controle nos braços, cabeça e tronco. . Segundo o decreto n°3.298 de 1999 da legislação brasileira , encontramos o conceito  de deficiência física, conforme segue:

Art.4° – deficiência física – alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as  que não produzam dificuldades para o desempenho de funções.

Quando nossos olhares se cruzaram foi estabelecido naquele momento uma ponte, nos ligamos de alguma forma, não havia fronteiras entre nós A deficiência física de José Luiz deu início a circularidade. Aproximei –me dele, nos apresentamos, perguntei se gostaria de fazer a oficina, seus olhos responderam antes da sua fala, me coloquei ao seu lado, o ajudei com as muletas , fomos para o centro da sala de aula, nos assentamos no chão, neste momento, alguns olhares atentos de outros (as) meninos (as) observavam aquela cena, motivando-os (as) a participar da Oficina. Naquele momento, estabelecíamos a Energia Vital ,estávamos juntos, em interação, influenciando um ao outro, nos relacionando, nos transformando. Sentados em roda, no chão da sala de aula, comecei a falar sobre algumas histórias da capoeira, História de um povo guerreiro. Por meio da fala  foi estabelecida e transmitida a potência dos saberes e de forma atenta foi escutada, contemplada, valorizada. Oralidade.

 

2.1 CORPOREIDADE, MUSICALIDADE E LUDICIDADE – UM MESMO SOM E CADA UM (A) NO SEU RITMO.

 Ao toque do Birimbau todos os corpos se mexiam, de José Luiz, não foi diferente , já sabiam o ritmo das palmas básica da capoeira e ouvindo o comando estabelecido pelo Berimbau, entravam no jogo da capoeira. Respeitando o corpo do outro e seu próprio, estabelecendo o contato, ligando e religando-se com aquele espaço, com aquelas pessoas. Citando Madalena Freire:

“ Não basta ter um corpo, é necessário senti-lo,
Amá-lo, cuidá-lo respeitosamente, conhecê-lo, vivê-lo na totalidade , para que possamos, na relação com o outro, assumir com autoria  o que somos , sentimos , desejamos, pensamos, fazemos com o nosso corpo, nossa vida, nossa história.” ( Freire,2000).

Sentir , conhecer, amar, respeitar o corpo. Sentados em roda, aquele grupo fazia uma capoeira diferente. José Luiz, não era diferente, assim como os outros fazia o que dava conta, juntos, tentávamos alguns movimentos, como o meia lua de frente. Propus que ficássemos um sentado de frente para o outro para executarmos da melhor forma possível o movimento que consiste em passar a perna por cima em movimento circular no sentido anti horário. José Luiz, apoiava as mãos no chão, assim como os outros, porém precisava do meu auxílio para executar o movimento, conseguiu fazer sozinho duas vezes. Depois realizamos o movimento denominado Queixada, que é exatamente o contrário do movimento denominado Meia Lua. Corpos em movimento, em repouso, corpos com tônus muscular diversos, corpos que contam histórias. Corporeidade.

Soltei um breve e sonoro “ IÊÊÊ”… era hora de repousar um pouco o corpo, percebi que José Luiz ficara um pouco cansado, mas não desanimado, pois o grupo demonstrava bastante interesse naquela nova forma de praticar a capoeira. Trocamos então a música;

1, 2, 3, 4

Capoeira é um barato

4,3,2,1

Pode jogar qualquer um  ( Refrão)

1 + 1 são 2

2+2 são 4

Capoeira joga em cima

Capoeira joga em baixo

( Refrão)

7 e 7 são 14

Com mais sete 21

Vou cantando e Contando

Jogando com um por um

( Refrão)

Na capoeira vou somar

Não posso diminuir

Praticando todo dia

Pra poder me divertir

( Refrão)

Eu canto, eu conto, eu somo

Multiplico a capoeira

Praticando sou feliz

Nessa arte brasileira ( www.abadadc.org/ professor Mobilia)

Repetimos a música o berimbau dava o tom, mas a Musicalidade se deu por meio da interação de todos nós da forma como estabelecemos, com alegria, brincando, com leveza, elegendo aquele momento como felicidade. Ludicidade. Restam alguns minutos para o término da oficina, dou um último toque no berimbau, quando o grupo percebe que é o último toque, em coro gritam “ mais um, mais um, mais um”, Ajudo José Luiz a se levantar, ele não usa muletas neste momento, vai se apoiando em uma cadeira, depois a mesa, eu sempre por perto, ele  consegue se assentar na cadeira, tocamos as mãos, trocamos os olhares, marejados de ambos, como se falássemos um para outro, “ muito obrigado “.Bate o sinal, me despeço de todos, saio da sala com a mochila nas costas e alma transbordando.

 2.2  COOPERATIVIDADE/ COMUNITARISMO, MEMÓRIA, RELIGIOSIDADE, ANCESTRALIDADE – FRAGMENTOS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA.

 Os saberes contidos nos valores civilizatórios  como a cooperatividade /comunitarismo, memória, religiosidade e ancestralidade permeiam o  relato de experiência em interface á Educação Inclusiva uma vez que, só é possível cooperatividade/ comunitarismo com o outro , pelo o outro e em favor do outro. A memória, é o respeito a história de cada um e cada uma , histórias diversas que muitas vezes são apagadas pelas várias formas de preconceito. A Religiosidade e Ancestralidade  nos traz á reflexão sobre a importância do ser humano em todo o seu âmbito .  Citando Margareth Diniz:

”  A Escola Inclusiva está afinada com os direitos humanos, porque respeita e valoriza todos(as) os (as) alunos(as), cada um (a) com suas características individuais. Além disso, é a base da sociedade para todos, que acolhe os sujeitos e se modifica para garantir que os direitos de todos(as) sejam respeitados.

O respeito aos direitos humanos corroboram com os valores civilizatórios africanos e afro brasileiros. E temos a urgência que  se efetive nos currículos escolares a Educação Inclusiva desde a formação de professores á adequação pedagógica e físico estrutural.


  1. CONCLUSÃO

 Conclui-se com este relato de experiência, que faz-se necessário e urgente uma ampla discussão sobre formas de dinamizar a efetivação de leis que garantam a Educação Inclusiva na escolas brasileiras de fato. E que todos os profissionais recebam a devida capacitação e formação para que estejam instrumentalizados para o trabalho com a Educação Inclusiva.

O papel do professor , do acompanhante, e de toda a equipe pedagógica de uma escola que se regula nos princípios de uma educação inclusiva é o de facilitador no processo de aprendizagem.

A avaliação é  um processo fundamental por subsidiar os planejamentos futuros, que por meio dos dados coletados auxiliará a equipe pedagógica a mensurar  o real contexto curricular em que se encontra a escola.

Por fim , é importante frisar que não há construção curricular sem a formulação de Valores pautados na ética, no respeito á pessoa humana, ,na coletividade e ao que é comum a todos(as) sem distinção. Na busca pela igualdade de direitos sem universalização, mas respeitando a beleza das diferenças., buscando sempre somar e nunca subtrair.

 

REFERÊNCIAS

FREIRE, Madalena. Sinais do corpo. In Diálogos Corporificados.Número 7,Ano 3, Julho de 2000. http:// www.pedagogico.com.br/info7a3.html

DINIZ, Margareth. Inclusão de pessoas com deficiência e/ou necessidades específicas:avanços e desafios/ Margareth Diniz –  Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2012.

1999 – Decreto n° 3.298- Regulamenta a Lei n° 7.853- Dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, define a educação especial como uma modalidade transversal a todos os níveis e modalidades de ensino, enfatizando a atuação complementar da educação especial ao ensino regular.

MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: pontos e contrapontos/ Maria Teresa Eglér Mantoan, Rosângela Gavioli  Prieto;Valéria Amorim Arantes, organizadora. – São Paulo: Summus, 2006. – (pontos e contrapontos)

Sites:

www.abadadc.org

www.acordacultura.org.br

 

ANEXOS

Registro Iconográfico:

Arquivo pessoal foto 1.

Arquivo pessoal 2

 

[1]Expressão utilizada no Projeto Educativo  A Cor da Cultura , de valorização da cultura afro-brasileira, fruto de uma parceria entre o Canal Futura, a Petrobras, o Cidan – Centro de Informação e Documentação do Artista Negro, a TV Globo e a Seppir – Secretaria especial de políticas de promoção da igualdade racial.

[2] Nome fictício da Escola Municipal

[3]  Nomenclatura utilizada no Sistema Municipal de Educação do Ensino Fundamental de Belo Horizonte ,compreendendo a faixa etária de meninos e meninas entre treze e quatorze anos de idade.

[4] Nome fictício do aluno.

Denilson Fiuza



6 thoughts on “PEGA EM MINHA MÃO,VEM JOGAR CAPOEIRA : Primeiras Vivências com a Educação Inclusiva – Um relato de experiência

  1. MONGE BRANCO says:

    O Professor Fiuza nos apresenta não somente as qualidades inerentes ao excelente profissional que é, mas também a humanidade, generosidade e capacidade de doação, que denotam seu reconhecido caráter de exemplar figura humana. Parabéns!

    • Marcia says:

      Que trabalho lindo, vejo que você está fazendo a diferença Fiuza! Gostaria de ter meu filho nessa escola tão rica!parabéns pelo ser humano que é!

  2. Denilson Fiuza says:

    Agradeço humildemente pelo reconhecimento do meu trabalho, Monge. De fato, foi uma partilha da realização de um sonho, o trabalho com a capoeira na Educação inclusiva. Tenho descoberto a cada dia as preciosidades vindas do chão da sala de aula, onde cabe todo mundo e a aprendizagem é um jardim de buniteza, como nos ensinou um dia Paulo Freire. Agradeço novamente de coração.

  3. Léia says:

    Oi Fiuza
    Parabéns por contribuir um pouco com nossa sociedade. Eu que algumas vezes tive a oportunidade de estar em sala com você, sei bem do seu carinho e iniciativa na inclusão de seus alunos na capoeira. E você faz isso da melhor forma possível, valorizando as possibilidades das crianças com deficiência, incentivando, humanizando para que efetivamente a inclusão aconteça. Parabéns pelo grande ser humano que você é. Tô muito feliz por ter! 👏

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