Uma estagiária quis desistir diante de um aluno com baixa visão. O que esse caso ensina sobre pedir apoio

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Duas profissionais conversam diante de um quadro durante o planejamento escolar

Uma estagiária recebeu a tarefa de acompanhar um estudante com baixa visão e pensou em desistir. Não porque lhe faltasse vontade de trabalhar, mas porque percebeu que improvisar diante de uma barreira de acessibilidade seria uma forma de deixar o aluno desprotegido.

No episódio 1 do podcast do Instituto Itard, ela conta essa experiência pública. O relato deixa uma lição que eu gostaria que toda professora em início de carreira escutasse: não saber ainda não é o problema. O problema é fingir que sabe e seguir sozinha quando a situação pede orientação.

Este é um relato de uma formação anterior

O vídeo pertence à antiga formação Educação Criacional Inclusiva, uma etapa anterior da trajetória pedagógica do Instituto Itard. Ele não é depoimento de um produto atual nem prova de que uma formação produz o mesmo resultado em toda situação.

É a narrativa de uma profissional em formação sobre uma experiência concreta. Por isso, preservo a identidade do estudante, da família, da escola e do município. Baixa visão é uma informação usada aqui apenas porque ajuda a compreender a barreira de acessibilidade que a estagiária precisava enfrentar; ela não explica a pessoa inteira nem autoriza conclusões sobre outros estudantes.

O medo não era incapacidade

Segundo a estagiária, o convite a surpreendeu. Ela tinha tido pouco contato prático com aquele tipo de barreira e não se sentia preparada para assumir a responsabilidade. A primeira vontade foi recuar.

Muita gente reconhece essa sensação. A escola chama, a família espera, o aluno está ali, e a professora pensa: “e se eu piorar a situação?”. É fácil tratar esse medo como prova de que a pessoa não serve para a educação inclusiva. Eu penso o contrário: ele pode ser o começo de uma decisão responsável.

Há diferença entre não saber por onde começar e acreditar que nada pode ser feito. A primeira situação pede apoio, estudo e tempo de observação. A segunda fecha a porta antes de olhar para a tarefa, para o ambiente e para as pessoas que podem dividir a responsabilidade.

Quando um apoio é necessário, a pergunta não precisa ser “dou conta sozinha?”. Pode ser: quem já conhece esta barreira? Que informação eu preciso reunir? Qual pequeno ajuste pode tornar a próxima participação mais segura?

Ela começou por conhecer a situação

No relato, a estagiária descreve que procurou conhecer o estudante e conversar com a família antes de decidir como agir. Também buscou orientação para interpretar reações que, de início, não entendia.

Esse caminho não equivale a uma técnica para baixa visão. Cada estudante pode usar a visão de modo diferente, precisar de condições diferentes de contraste, distância, iluminação, tamanho ou mediação. A história não oferece um pacote de ajustes para copiar.

Ela oferece um princípio: observar a situação antes de escolher o recurso. Quando uma criança reage com receio a algo novo, por exemplo, a resposta não precisa ser insistir ou concluir que ela “não quer participar”. Pode ser descobrir o que naquela proposta ainda não ficou acessível ou previsível.

É uma conversa próxima do que defendo quando falo que a atividade é onde o aluno participa. A barreira nem sempre mora numa característica do aluno. Muitas vezes, ela cresce ou diminui conforme a tarefa, a linguagem, os materiais e os apoios disponíveis.

Pedir orientação mudou a qualidade da pergunta

A estagiária não narra uma descoberta solitária. Ela fala de apoio, conversa e acompanhamento. Isso importa porque acessibilidade não deveria depender de uma heroína que acerta tudo de primeira.

Na escola, pedir orientação pode envolver coordenação, AEE, família, profissionais que acompanham o estudante e quem já possui experiência com o recurso ou a barreira em questão. A responsabilidade continua sendo da professora, mas ela não precisa carregar sozinha conhecimentos que são da equipe.

Para mim, uma pergunta útil para a próxima reunião seria esta: qual apoio de acessibilidade pode tornar a participação possível e quem pode nos ajudar a testá-lo com responsabilidade?

Essa pergunta tira a conversa da culpa e coloca a escola em movimento. Ela também evita outra armadilha: adaptar depressa demais e reduzir o desafio antes de saber o que está impedindo a participação. Um percurso acessível não é um percurso vazio; é um caminho em que o aluno pode chegar ao objetivo.

Se você está avaliando uma mudança na atividade, o texto sobre ajudar sem tornar o aluno dependente aprofunda essa diferença entre apoio útil e ajuda que toma o lugar do estudante.

O que este caso permite — e o que não permite concluir

A estagiária relata que, com o tempo, conseguiu construir uma relação de trabalho e perceber respostas do estudante às propostas. Essa é a experiência dela, naquele contexto. Não demonstra eficácia universal, não substitui avaliação funcional nem autoriza prometer resultado a outra família.

Também não permite dizer que toda professora deve agir do mesmo modo ou que a baixa visão pede um único recurso. O valor do relato está em lembrar que uma dúvida profissional pode ser organizada: observar, pedir orientação, planejar em conjunto e acompanhar o que acontece.

Esse é o ponto que não pode se perder. Professora sem culpa não é professora abandonada à própria sorte. É professora que ganha linguagem para reconhecer um limite, buscar ferramenta e participar de uma decisão compartilhada.

Se você conhece alguém que acabou de receber um aluno e está com medo de não saber por onde começar, encaminhe este post. Às vezes, o primeiro apoio que uma professora precisa é ouvir que pedir ajuda também é parte do trabalho bem-feito.

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Perguntas frequentes

O que a escola pode fazer ao receber um aluno com baixa visão?
A escola pode começar conhecendo a situação do estudante, ouvindo a família e articulando as pessoas que podem orientar o planejamento. Baixa visão não determina um único recurso: condições de contraste, distância, iluminação, tamanho e mediação podem variar, por isso decisões precisam ser acompanhadas no contexto real.
A professora precisa saber tudo sobre baixa visão antes de ensinar?
Não. A professora precisa reconhecer os limites do que sabe, observar a participação do aluno e pedir orientação quando necessário. Essa postura não reduz sua responsabilidade pedagógica; ela permite que a escola compartilhe conhecimentos e escolha apoios com mais cuidado, em vez de improvisar uma solução isolada.
Um recurso de acessibilidade serve para todos os alunos com baixa visão?
Não. Pessoas com baixa visão podem utilizar a visão de modos diferentes e encontrar barreiras diferentes em uma mesma atividade. Um recurso deve ser escolhido a partir da situação, do objetivo e da resposta observada, sem supor que uma solução adotada por outro estudante será adequada neste caso.
Quem pode ajudar a planejar acessibilidade na escola?
A coordenação, o AEE, a família, profissionais que acompanham o estudante e pessoas com experiência na barreira ou no recurso podem contribuir. A composição depende do contexto. O importante é que a professora tenha apoio para transformar observações em decisões pedagógicas compartilhadas e revisáveis.
Pedir ajuda significa que a professora não está preparada?
Não. Pedir ajuda pode ser uma decisão profissional responsável quando a situação exige conhecimento que não cabe em uma pessoa só. A escola inclusiva não depende de uma heroína que acerta tudo de primeira: ela organiza colaboração, observa os efeitos dos apoios e preserva o desafio de aprendizagem.

Fontes consultadas

  1. Instituto Itard — Ep. 01: Estagiária pensa em desistir

    depoimento-publico youtube.com · acesso em 1 de agosto de 2026

Retrato de Leandro Rodrigues sorrindo, de óculos e blazer.

Escrito por

Leandro Rodrigues

Fundador do Instituto Itard e criador do Modelo AEIOU. Há mais de 20 anos adapta atividades e ensina professores a fazer o mesmo — mais de 10 mil profissionais formados, em 6 países. Conheça a história.

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