Quando acertar volta a parecer possível, o aluno tenta de novo
- Educação Inclusiva
Quando acertar volta a parecer possível, o aluno tenta de novo. Não porque alguém diminuiu o desafio, mas porque a atividade deixou de avisar, antes mesmo do começo, que ele vai falhar.
Quando a tentativa já chega cansada
Você entrega a atividade. O aluno olha, começa, apaga, pergunta se está certo. Erra uma vez. Tenta de novo sem saber por onde ir. Erra outra. Da terceira vez, ele já não está pensando na pergunta; está procurando uma saída daquela folha.
Às vezes a saída é dizer que não sabe. Às vezes é pedir para ir ao banheiro. Às vezes é ficar irritado, rasgar o papel ou esperar que alguém faça junto. Por isso, antes de chamar essa reação de falta de vontade, eu também olho para o que a própria tarefa está exigindo.
Quem vê isso de fora costuma dizer que ele precisa se acostumar a errar. Eu entendo essa ideia. A escola ensina que tropeçar faz parte e que insistir é importante. É verdade que ninguém aprende tudo de primeira.
Mas existe uma diferença grande entre encontrar um erro enquanto aprende e passar a aula inteira acumulando provas de que não consegue participar. Quando o erro se repete sem uma condição melhor para tentar, ele não vira reflexão. Vira desistência.
O erro não precisa ser a porta de entrada da aprendizagem
B. F. Skinner foi direto: “Os erros não são necessários para que ocorra o aprendizado.” Isso não quer dizer fingir que o aluno sempre sabe ou esconder dele aquilo que ainda precisa aprender. Quer dizer que a escola não precisa colocar o fracasso como pedágio para ele entrar na atividade.
Touchette e Howard (1984) também apontam que a aprendizagem sem erros pode ajudar no ensino de novas habilidades porque reduz a frustração do aluno. Para mim, essa frase importa pelo que ela muda no cotidiano: o aluno que acerta uma primeira vez volta a acreditar que vale a pena começar a próxima.
Antes de insistir no erro, faça o acerto voltar a parecer possível.
Isso não é proteger demais. É reconhecer que uma atividade pode exigir tantas coisas ao mesmo tempo que o aluno se perde antes de encontrar a habilidade que você queria observar. Ele precisa ler, lembrar, localizar, organizar a resposta e lidar com uma folha que parece grande demais. Quando tudo isso vem junto, o erro pode estar contando mais sobre a barreira da tarefa do que sobre o que ele compreendeu.
O aluno não mudou. A atividade mudou. E quando a atividade muda, o aluno aparece.
Acertar não é receber uma atividade mais fácil
Tem uma preocupação honesta aí: se eu permitir que ele acerte, não vou simplificar demais? Não vou tirar dele a chance de aprender?
Não. Adaptar não é simplificar. Adaptar é criar um percurso cognitivo viável para o aluno conseguir fazer e acertar sem ajuda.
Pense em uma pergunta de interpretação. O objetivo não é provar que o aluno aguenta procurar uma informação no meio de uma página inteira. O objetivo é saber se ele consegue compreender uma ideia do texto. Se a organização da folha faz com que ele se perca antes de chegar à pergunta, a atividade está cobrando uma coisa além do que pretende avaliar.
Quando a barreira diminui, o desafio continua. Só que agora ele aparece no lugar certo: no pensamento que você quer que o aluno faça. O acerto deixa de ser um favor e passa a ser evidência de que a participação foi possível.
É por isso que eu não compro a frase “ele não tenta”. Muitas vezes ele tentou tantas vezes em condições ruins que aprendeu outra coisa: pedir ajuda antes de começar, esperar alguém dar a resposta ou se afastar da tarefa.
Essa ajuda constante pode parecer cuidado, mas cria uma incoerência. Na hora da atividade, alguém conduz cada passo; na avaliação, a ajuda sai e a escola espera autonomia. O aluno não precisa de uma aula mais fácil. Precisa de uma chance de mostrar o que sabe sem depender de alguém ao lado o tempo todo.
A primeira experiência de possibilidade muda a conversa
Não estou prometendo que uma atividade melhor vai resolver tudo. Cada aluno tem sua história, seu ritmo e suas necessidades. O caminho completo pede observação, escolha e método.
Mas há um primeiro movimento que muda o clima da sala: parar de interpretar cada erro como prova de incapacidade e passar a perguntar se a atividade ofereceu uma entrada possível.
Essa pergunta tira a professora do lugar de culpa. Não é que você não soube ensinar. Você recebeu uma situação difícil e, muitas vezes, sem um método para enxergar onde a tarefa está empurrando o aluno para fora.
Quando a experiência inicial devolve alguma segurança, o aluno pode se arriscar outra vez. Ele olha para o papel e pensa menos “eu não consigo” e mais “talvez eu consiga começar”. É uma mudança pequena por fora, mas enorme para quem já estava acostumado a falhar antes de participar.
E a professora também ganha outra coisa: em vez de passar a aula apagando incêndio, ela volta a observar. Percebe o que o aluno fez sozinho, o que ainda pede apoio e onde está o próximo ponto de ensino. Não é dom, não é intuição. É técnica, e técnica se aprende.
A atividade pode devolver ao aluno o lugar de quem aprende
O Método Possibiliza parte dessa ideia: inclusão de verdade não acontece quando o aluno apenas permanece na sala. Acontece quando ele consegue fazer a atividade, pensar nela e acertar de preferência sozinho.
Na aula gratuita do Adaptando na Prática, eu mostro como olhar para uma atividade com esse critério e por que método faz mais diferença do que continuar tentando no achismo.
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Perguntas frequentes
- O que é aprendizagem sem erro?
- Aprendizagem sem erro é uma abordagem em que o ensino cria condições para que o aluno tenha maior probabilidade de responder corretamente ao aprender uma habilidade nova. O princípio não elimina o desafio intelectual; ele procura evitar que erros repetidos sejam a experiência dominante antes de o aluno conseguir participar da tarefa.
- Aprendizagem sem erro deixa a atividade mais fácil?
- Não necessariamente. Uma atividade pode manter o mesmo objetivo de aprendizagem e remover barreiras que não fazem parte desse objetivo. Por exemplo, organizar melhor as informações pode ajudar o aluno a localizar o que precisa para interpretar um texto, sem entregar a resposta ou reduzir o desafio de compreensão.
- Por que erros repetidos podem afastar o aluno da atividade?
- Erros fazem parte de muitas experiências de aprendizagem, mas sua repetição sem condições de avanço pode fazer a tarefa parecer inacessível. Quando o aluno encontra uma entrada possível e consegue participar, a professora pode observar com mais clareza o que ele já sabe e onde ainda precisa de apoio pedagógico.
- A aprendizagem sem erro substitui a avaliação escolar?
- Não. Ela se refere às condições de ensino durante a aprendizagem. A avaliação continua importante para reunir evidências sobre o que o aluno compreendeu, desde que a atividade permita observar a habilidade que se pretende acompanhar e não apenas barreiras de acesso ao enunciado ou ao formato.
- Quem pode se beneficiar de uma atividade mais acessível?
- Atividades acessíveis podem favorecer diferentes alunos quando tornam mais claro o caminho até o objetivo de aprendizagem. A necessidade de apoio e a forma de participação variam entre estudantes; por isso, a escola precisa observar o contexto, os recursos disponíveis e as barreiras presentes em cada proposta.