Material concreto em matemática ajuda mesmo? O que a evidência pede além de colocar peças na mesa

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Mão de adulta organiza blocos de madeira e números sobre uma mesa

Material concreto em matemática pode ajudar, mas não por uma espécie de mágica do cubinho, da ficha ou da barra. A evidência aponta potencial quando o objeto está ligado a uma ideia matemática e acompanhado de ensino; ela não autoriza concluir que deixar peças sobre a mesa produz compreensão por si só.

Essa distinção importa especialmente quando uma professora procura uma entrada para incluir um aluno. Trocar números por objetos coloridos pode mudar a aparência da tarefa e, ainda assim, deixar pouco claro o que o estudante precisa perceber, comparar ou explicar.

O que as pesquisas realmente investigaram

Na meta-análise de Carbonneau, Marley e Selig, foram reunidos 55 estudos, com 7.237 estudantes da educação infantil ao ensino superior. Eles compararam aulas de matemática com manipuláveis a aulas que trabalhavam apenas com símbolos matemáticos abstratos e mediram o desempenho em matemática. O resultado médio favoreceu os manipuláveis com efeito pequeno a moderado. Isso é uma pista importante, não uma autorização para tratar qualquer objeto como solução para qualquer conteúdo.

Os estudos reunidos não usam todos o mesmo material, a mesma idade, o mesmo objetivo ou a mesma forma de ensinar. Por isso, a comparação não responde uma pergunta como “o material dourado funciona?”. Ela responde algo mais prudente: em determinados contextos, o ensino que usa materiais concretos pode ter vantagem sobre uma alternativa sem eles.

Uma revisão sistemática de Lafay, Osana e Valat, voltada a intervenções com manipuláveis para crianças com dificuldades de aprendizagem em matemática, encontrou resultados promissores em objetivos variados, mas também grande diversidade entre participantes, intervenções e métodos. As autoras chamam atenção para aprendizagem imediata, manutenção e transferência: acertar com o objeto na hora não mostra, sozinho, que a ideia será retomada depois ou usada numa situação diferente.

Esse limite vale para qualquer sala. Um material pode tornar uma relação visível na primeira tentativa e ainda exigir tempo, linguagem e novas oportunidades para que o aluno reconheça a mesma relação em um desenho, numa reta numérica ou numa conta escrita.

O objeto precisa representar alguma coisa

Imagine que a turma está pensando em 34 como três dezenas e quatro unidades. Cubos ou barras podem ser úteis se a conversa fizer o aluno relacionar a barra a uma dezena, os cubos às unidades e o agrupamento ao número registrado. Se ele apenas empilha peças para cumprir uma instrução, talvez esteja treinando uma ação com as mãos sem chegar à relação de valor posicional que a aula pretende ensinar.

Não é uma crítica ao uso das mãos. É um cuidado com a ponte. A pergunta é: qual ideia matemática este material deve tornar visível — e como o aluno vai mostrá-la quando o objeto não estiver ali?

Essa pergunta aproxima o material concreto do que já discutimos sobre partir do objetivo antes de produzir mais atividades. O recurso não vem antes do objetivo; ele entra porque pode abrir uma forma de observar e participar daquela aprendizagem.

Também ajuda a evitar a confusão entre adaptação e simplificação. Uma atividade adaptada preserva vínculo com o que a turma está aprendendo e procura um percurso viável para participar. O material concreto pode fazer parte desse percurso, mas não substitui o objetivo nem reduz automaticamente o desafio matemático.

Mediação não é entregar a resposta

Uma revisão de escopo de Byrne e colegas, que reuniu 102 estudos sobre intervenções com manipuláveis físicos na educação infantil e nos anos iniciais, encontrou resultados mais promissores em matemática, mas também evidência mista e limitações metodológicas. Entre as implicações práticas, o estudo destaca escolher materiais e atividades adequados à idade e ao objetivo, além de considerar a orientação de que cada aluno precisa.

Orientar não significa fazer pelo aluno. Pode ser pedir que ele explique por que duas barras representam a mesma quantidade que um conjunto de cubos, mostrar uma representação e perguntar o que muda quando se troca o agrupamento, ou convidar a registrar a relação que acabou de montar. A professora continua observando se o apoio está aproximando o estudante da ideia ou virando apenas uma sequência para imitar.

Quando o raciocínio ainda está opaco, um exemplo resolvido pode tornar etapas visíveis. Quando o aluno já começou a perceber a relação, a próxima tarefa precisa devolver espaço para que ele tente uma variação. O material, o desenho, a fala e o símbolo podem ocupar lugares diferentes nessa passagem; nenhum deles garante o outro automaticamente.

Uma decisão mais segura para a próxima aula

Em vez de perguntar só “qual material concreto eu tenho?”, experimente começar por três pontos:

  • qual conceito ou relação matemática precisa aparecer na atividade;
  • o que o aluno fará com o material que mostra essa relação, e não apenas que ele o manipulou;
  • onde ele poderá representar ou explicar a mesma ideia depois, sem depender exatamente da mesma peça.

Essas perguntas não são uma sequência pronta nem medem, sozinhas, se uma intervenção funcionou. Elas ajudam a transformar um recurso em uma decisão que pode ser observada e revista.

A posição do Instituto Itard é simples: evidência não é receita pronta; é informação para uma decisão mais responsável. Um recurso vale pelo pensamento que ajuda a tornar visível, não por parecer mais lúdico, mais fácil ou mais inclusivo à primeira vista.

Se você está começando a organizar esse olhar para objetivo, barreira e participação, assista à aula gratuita. Ela apresenta um primeiro caminho para sair da improvisação e decidir com mais critério.

Qual conceito de matemática você gostaria de conseguir enxergar melhor na próxima atividade com material concreto? Este texto pode ser útil para encaminhar à colega que prepara recursos com cuidado, mas quer discutir o que cada um deles ajuda o aluno a compreender.

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Perguntas frequentes

Material concreto ensina matemática sozinho?
Não. O recurso pode ajudar a tornar uma ideia visível, mas o aluno precisa relacionar o que faz com o objeto ao conceito que está aprendendo e a outras formas de representá-lo.
Usar cubinhos ou material dourado é sempre uma adaptação?
Não. O uso só funciona como apoio pedagógico quando responde a um objetivo de aprendizagem e abre uma participação viável sem substituir o desafio matemático por uma tarefa paralela.
Como saber se o aluno compreendeu além do material concreto?
A professora pode propor que ele explique a relação, a represente em desenho ou símbolo e tente uma situação semelhante. Um único acerto não permite concluir retenção ou transferência.
Material concreto serve apenas para os anos iniciais?
Não há uma resposta única baseada apenas no nome do recurso. A escolha precisa considerar o conceito, a idade, a atividade e o tipo de orientação que ajuda o estudante a usar o material com sentido.

Fontes consultadas

  1. A meta-analysis of the efficacy of teaching mathematics with concrete manipulatives — Carbonneau, Marley e Selig

    meta-analise doi.org · publicado em 1 de janeiro de 2013 · acesso em 11 de setembro de 2026

  2. Effects of Interventions with Manipulatives on Immediate Learning, Maintenance, and Transfer in Children with Mathematics Learning Disabilities — Lafay, Osana e Valat

    revisao-sistematica doi.org · publicado em 1 de janeiro de 2019 · acesso em 11 de setembro de 2026

  3. Educational interventions involving physical manipulatives for improving children's learning and development: A scoping review — Byrne et al.

    revisao-de-escopo doi.org · publicado em 1 de janeiro de 2023 · acesso em 11 de setembro de 2026

Retrato de Leandro Rodrigues sorrindo, de óculos e blazer.

Escrito por

Leandro Rodrigues

Fundador do Instituto Itard e criador do Modelo AEIOU. Há mais de 20 anos adapta atividades e ensina professores a fazer o mesmo — mais de 10 mil profissionais formados, em 6 países. Conheça a história.

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