Como adaptar atividades para diferentes casos de atraso cognitivo ou deficiência intelectual?

como adaptar atividades para alunos com deficiência intelectual ou atraso cognitivo

Preparei 6 dicas que irão te ajudar a descobrir como adaptar atividades para diferentes casos de deficiência intelectual ou atraso cognitivo. Se você é professor do AEE ou da sala de aula regular e precisa fazer adaptações curriculares, esse texto é para você.

A deficiência intelectual ou o atraso cognitivo talvez seja um dos maiores desafios do professor do AEE – Atendimento Educacional Especializado, por consequência, um dos maiores desafios da educação especial também.

Mentes diferentes pensam diferente

A mente humana por si só já é um mistério, objeto de estudo que por séculos intriga os mais notáveis cientistas. Quando recebemos um aluno com diagnóstico de deficiência intelectual, não sabemos o que esperar.

Bom, a deficiência intelectual ou deficiência cognitiva (que é diferente de doença mental) é um rótulo que abrange um enorme espectro de possibilidades. O principal sintoma é a dificuldade de raciocínio e compreensão. Geralmente esses alunos possuem dificuldades conceituais, sociais e práticas.

O que acontece é que, assim como nenhuma pessoa é igual a outra, nenhum caso de deficiência intelectual é igual ao outro. Temos sim diferentes casos de dificuldades cognitivas, alguns que chegam a ser considerados deficiência intelectual.

Resumindo: o aluno com dificuldades cognitivas apresenta problemas para aprender. Mas isso não quer dizer que ele não pode aprender. Quer dizer que precisamos adaptar atividades curriculares.

Um método para adaptar atividades

Ao adaptar atividades para qualquer aluno (inclusive os com deficiência intelectual) eu sempre recomendo uma série de passos que, se executados em sequência e de forma correta, irão facilitar muito o trabalho do professor e a vida do aluno.

Eu chamo esses passos de AEIOU da Educação Especial.

A – Análise
E – Empatia
I – Interação
O – Organização
U – Ultrapassar barreiras

Análise porque você precisa conhecer muito bem seu aluno em vários aspectos. Fica muito mais fácil ensinar algo para alguém que conhecemos, pois assim podemos usar referências que fazem sentido para a pessoa.

Empatia porque, sinceramente, sem empatia não conseguimos chegar a lugar nenhum. Entender e respeitar os sentimentos do outro, fazer o exercício de se imaginar na situação do outro para só depois agir pode mover barreiras e poupar muito tempo e esforço.

Interação porque sem um comunicação minimamente eficiente você não irá entender seu aluno e seu aluno não irá entender você. Não é possível ensinar nada para quem não entende sua forma de se comunicar. Lembre-se que comunicação vai muito além da fala.

Organização porque precisamos de método, de estratégias, de planejamento. A educação inclusiva é uma grande jornada e sem um mapa, sem definir muito bem o rumo da nossa viagem, os locais de parada, as referências, direções, certamente nos perderemos no caminho.

Ultrapassar barreiras. Os desafios irão surgir, seja na própria escola, com o aluno, com você, com a família. Temos que ter em mente que todos podem aprender. Pense nisso quando o desafio for tão grande que a sua vontade seja desistir, de deixar assim mesmo, de abrir mão do planejamento e deixar o aluno no canto da sala sem nenhum progresso. É esse o momento que separa o sucesso do fracasso. Quem persiste ultrapassando barreiras tem sucesso, sempre.

Há muito o que falar sobre cada um desses passos, mas o que eu acredito que vai te ajudar mais nesse momento é entender o seguinte:

1º Estude e conheça seu aluno

Saiba do que seu aluno com deficiência intelectual gosta, dos interesses, da vivência com os familiares, com os colegas da escola, o que ele faz no tempo livre e por aí vai.

Mas por que Leandro, será que isso ajuda? SIM! Ajuda.

Vou dar um exemplo: imagine que você deseja ensinar seu aluno a ficar sentado na cadeira durante a aula. Para isso, você implementa a estratégia de reforço positivo, recompensando seu aluno toda vez que ele se comporta da maneira esperada. Agora, me diga, o que você usará de recompensa para seu aluno se você não conhece ele? É o mesmo que dar um presente de amigo oculto para um desconhecido… a chance de errar é altíssima.

2º Garanta que seu aluno está no estágio de desenvolvimento adequado

Olha, eu posso até tentar ensinar equação do segundo grau para meu filho de quatro anos de idade, mas te garanto que eu vou falhar e fazer meu filho ficar com trauma de equação.

Isso porque ele não está no estágio de desenvolvimento adequado para aprender esse tema. Como eu sei disso? A Idade de desenvolvimento do meu filho corresponde com a idade cronológica: 4 anos. Ele não apresenta nem déficit nem altas habilidades.

Bom… pode ser até óbvio para uma criança com desenvolvimento dentro de esperado, mas alunos com deficiência intelectual geralmente apresentam atraso no desenvolvimento e você só irá descobrir se esse é o caso do seu aluno aplicando um teste. Eu recomendo fortemente o Inventário Portage Operacionalizado

No meu e-book gratuito sobre Como Adaptar Atividades para Alunos com Deficiência, falo sobre a importância de conhecer qual a idade de desenvolvimento do seu aluno (que poder ser diferente da idade cronológica) e saber exatamente o que fazer para que seu aluno tenha uma evolução na área que ele apresenta maior déficit: seja motor, social, cognitivo, linguagem ou autocuidados.

3º Estabeleça um vínculo com seu aluno: a empatia é essencial

Não sei se você sabe disso, mas todos nós só aprendemos de quem nós confiamos e só confiamos em quem nós gostamos. Se o seu aluno não gosta de você, sabe quando ele vai aprender alguma coisa: nunca! Tá, nunca talvez seja forte demais, porém é bem mais fácil ensinar para alguém que gosta de nós, pois essa pessoa tende a ouvir e confiar no que escuta. Além disso, saber o que seu aluno sente, as emoções dele, o que o deixa feliz ou triste é primordial para o aprendizado. Isso porque é impossível aprender sem ter uma emoção associada. Planeje situações que irão despertar emoções quando for adaptar atividades escolares.

4º Crie novas possibilidades de comunicação eficaz

Eu não tenho nenhuma deficiência intelectual e muitas vezes tenho dificuldades de entender o que estão querendo me dizer. A comunicação é um processo complexo. Imagina para quem tem deficiência intelectual. As chances do seu aluno ter dificuldades de entender o que está sendo dito, ou ainda, não saber se comunicar e expressar corretamente são altíssimas. Para garantir a eficácia da comunicação é necessário aplicar testes e estratégias. Talvez seja até recomendado o uso de comunicação alternativa. Vai depender de cada caso. Mas uma coisa é certa, quanto mais formas de comunicar uma ideia, melhor. Em texto, em foto, verbalmente, em uma canção, em quadrinhos, em cartaz, em fantoches, em atividades ao ar livre, com objetos concretos. Quando vamos adaptar atividades a criatividade não pode ter limites. Mas lembre-se de ser criativo pensando no que faz sentido para o seu aluno, dentro da realidade dele.

5º Diminua o nível de abstração

Essa é, na minha opinião a dica mais importante para adaptar atividades para alunos com deficiência intelectual. Diminuir a abstração é tornar algo mais concreto, palpável.

Quanto mais abstrato um assunto for, mais difícil será assimilar. Quer um exemplo? Olha, o que é mais concreto?

mostrar uma ilustração de um peixe dentro da água e falar para seu aluno que os peixes precisam da água para viver

ou

levar um aquário até a escola e deixar seu aluno ver o peixe na água e ver o que acontece com o peixe quando fica sem a água.

Cruel? (com o peixe), talvez. Mas você não precisa deixar o peixe morrer. Impactante? Sim, caso seu aluno nunca tenha visto um peixe e não entenda do que eles precisam para viver.

Mas Leandro, se meu aluno não demonstrar interesse? Ai que entra a importância da primeira dica que falamos aqui. Descubra o que é importante para seu aluno e use a criatividade para vincular isso ao conteúdo que você quer ensinar. Desperte emoções agradáveis durante a sua aula.

6º Divida um assunto complicado em passos menores, mais fáceis de fazer.

Existem vários níveis de inteligência para várias coisas. Eu sempre tive muita facilidade em operar dispositivos eletrônicos e computadores, me destacando (positivamente) das outras pessoas. Talvez isso seja sinal de algum tipo de inteligência. Por outro lado, eu me destaco (negativamente) para fazer trabalhos com papel, cola e tesoura. Podemos dizer que minha inteligência para fazer um embrulho de presente (por exemplo) esteja abaixo da média.

Não é que eu não consiga fazer um embrulho de presente, mas terei muita dificuldade, vou precisar de tempo, instruções claras sobre como proceder, onde dobrar, onde colar, onde recortar.

Percebeu o ponto que quero chegar?

Não adianta dizer para mim: – Leandro, faça o embrulho desse presente.

Você terá de dizer: – Leandro, recorte o papel nessa linha. Depois dobre aqui. Agora dobre ali. Agora cole aqui dessa forma… e por aí vai.

Dessa forma a chance de eu terminar meu embrulho de presente de uma maneira satisfatória será bem maior. Quem sabe, depois de muito praticar, durante vários dias, ao final do semestre eu consiga embrulhar um presente com perfeição.

São diferentes casos de deficiência intelectual ou são apenas mentes diferentes?

Quando paramos de ver o outro como um deficiente e olhamos como apenas o outro, aumentamos a chance de ser criativo e acreditar no potencial desse indivíduo, pois trocamos o preconceito pela curiosidade de descobrir o que não entendemos.

Cada aluno sempre será único. Todos são únicos. O aluno com atraso cognitivo ou uma deficiência desconhecida também é único e exigirá de nós uma mente aberta a explorar novas possibilidades.

Um grande abraço!

Leandro Rodrigues

Professor nos cursos do Instituto Itard, especializado em Educação, Diversidade e Inclusão Social, com foco em Tecnologias Assistivas e Comunicação Alternativa. A equipe do Instituto Itard é formada por professores, tutores e consultores especializados em educação especial e educação inclusiva.



8 thoughts on “Como adaptar atividades para diferentes casos de atraso cognitivo ou deficiência intelectual?

    • Sonia Cristina says:

      Leandro, concordo com todos os pontos. E sobre dividir o assunto em passos é muito importante para a aprendizagens dos alunos que aprensentam uma dificuldade ou deficiência intelectual. Parabéns e obrigada pelo artigo.

  1. Tânia Carneiro De Moraes says:

    Excelente artigo, o peixe no aquário, a morte do pexe se preciso, é no concreto que realmente temos respostas satisfatórias. A´te embrulhar o presente me deu ideias. rsrs. Você é demais Leandro!
    Preciso de fontes de estudos para montar a sala de aula e um vasto arsenal de atividades.

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